Crítica | Vitória – Fernanda Montenegro BRILHA em Atuação Corajosa Baseada em História Real

Idosa com guarda-chuva na calçada de mosaico.

No início dos anos 2000, não eram muitas as pessoas no Brasil que tinham celulares, e o conceito de smartphone (conectado à internet, que mandava mensagens, tirava fotos e gravava vídeos para as redes sociais) era apenas uma ideia em desenvolvimento em outros países. O acesso a câmeras (caseiras ou cinematográficas) era quase restrito, dado o alto valor para aquisição. Mesmo nesse cenário econômico, uma senhorinha, moradora de Copacabana, no Rio de Janeiro, gastou suas economias para comprar uma câmera e, assim, denunciar os crimes que via da janela de sua casa. Essa denúncia, corajosa, apareceu nas páginas dos jornais da época e, este ano, ganhou as telonas, com o filme ‘Vitória’, atualmente em cartaz e que já levou mais de meio milhão de espectadores aos cinemas.

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Nina (Fernanda Montenegro) é uma senhora que vive sozinha em seu pequeno apartamento em Copacabana, o único bem que conseguiu após toda uma vida de muito trabalho árduo. Até hoje Nina trabalha como massoterapeuta, e tem muito orgulho de seu apartamento. Porém, o entorno do bairro mudou muito, e o que antes era mato hoje é a entrada de uma comunidade dominada pela violência e pelo tráfico. Cansada de viver sob o terror de ser atingida por uma bala perdida, ela decide procurar a delegacia para pedir ajuda no policiamento, porém, se surpreende com a postura dos policiais: a corporação só iria se mexer sobre o assunto caso ocorresse uma denúncia sobre o caso. Sem saída, Dona Nina toma uma decisão: gasta suas economias para comprar uma câmera portátil para, assim, filmar tudo que acontece no morro através de sua janela, de modo que com essa denúncia a polícia leve a sério seu pedido de socorro.

Baseado em eventos reais, ‘Vitória’ consegue comover, emocionar, inspirar e até mesmo faz rir. O roteiro de Paula Fiúza e Fábio Gusmão equilibra bem todas as emoções às quais o espectador deve acessar para mergulhar totalmente no filme – desde a indignação diante da frustração da protagonista à empatia diante da impotência de se fazer ouvir pelo sistema; desde repulsa às cenas de violência a um sentimento de coração dilacerado ao vermos Fernanda Montenegro sofrendo, se escondendo na banheira para sobreviver ou sendo empurrada na rua. Não tem como cenas como estas não doer em nossos corações.

Idosa observando através das persianas da janela.

Ao mesmo tempo, o roteiro também encontra  formas de suavizar a história graças ao cotidiano comum daqueles moradores, que, conjunto com a atuação de Montenegro, agregam humor pela simplicidade dos eventos diários. Neste quesito, foi acertadíssima a escolha de Linn da Quebrada para o papel da vizinha fofoqueira e amiga, não só pela boa atuação da atriz e cantora, mas, principalmente, pela representatividade dos corpos trans, grande parcela dos moradores do bairro de Copacabana.

Alan Rocha recebe a missão de interpretar não só o jornalista que acredita e publica a história de Dona Nina, mas também aceita o desafio de co-protagonizar um filme com uma das maiores atrizes da história do cinema. Alan entrega competência e doçura bem dosados a este personagem que, acima de tudo, faz de sua empatia o motivacional de sua carreira – e isso transparece no filme. Ramon Francisco, no papel do traficante Ruivo, consegue protagonizar duas das cenas mais impactantes do filme: uma de extrema violência, outra que arranca riso coletivo, o que demonstra a versatilidade deste jovem ator em ascensão no cenário brasileiro.

Vitoria

Com uma trajetória de filmes corajosos, o diretor Andrucha Waddington prova uma vez mais ser um dos maiores e mais sensíveis diretores da atualidade. Com muito respeito, Andrucha termina o projeto iniciado pelo diretor Breno Silveira, dirige a própria sogra – que protagoniza a maioria das cenas do filme – e ainda entrega um presente aos espectadores brasileiros, de serem agraciados pela potência que é ver Fernandona brilhando nos cinemas.

Em muitos sentidos e camadas, ‘Vitória’ faz jus ao título trazendo Fernanda Montenegro em todo o seu potencial artístico. Um filme que dá orgulho de ser brasileiro, e sem dúvidas pode ser nosso próximo representante ao Oscar de Melhor Atriz.

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