Por que você deveria prestar mais atenção ao consumo em Watt do que ao tanto de mAh?

É comum ver pessoas comparando celulares, tablets ou notebooks com base em dois números chamativos: a capacidade da bateria em mAh. Mas essas métricas, apesar de populares, raramente contam toda a história. Quando falamos em autonomia, o dado mais útil — e menos divulgado — é o consumo em Watt.

É essa unidade simples é o que realmente determina quanto seu aparelho aguenta longe da tomada, qual será seu desempenho sob pressão e até quão quente ele vai ficar.

O Watt mostra a verdade que o marketing esconde

Diferente do mAh, que mostra apenas quanto de carga a bateria pode armazenar, o watt-hora (Wh) revela quanto de energia você realmente tem à disposição. Mais importante: quando você conhece o consumo do aparelho em Watts, dá pra estimar com precisão a duração da bateria.

Mais do que números de ficha técnica, saber quantos Watts seu aparelho consome é o que permite controlar (e prever) seu uso com inteligência

Quer um exemplo simples? Um notebook com uma bateria de 60Wh e consumo médio de 20W vai durar três horas. Já outro, com o mesmo tamanho de bateria, mas consumindo só 10W, pode durar o dobro.

Reprodução/DALL-E

Entenda de vez: Watt, mAh e Wh

Para interpretar corretamente as especificações de um dispositivo eletrônico, é essencial entender três unidades comuns, mas com funções bem diferentes: Watt (W), mAh (miliampère-hora) e Wh (watt-hora).

O Watt (W) mede a potência — ou seja, quanta energia um aparelho consome ou entrega por segundo. Já o mAh é uma medida de carga elétrica, indicando quantidade de corrente que a bateria pode fornecer ao longo do tempo, mas sem considerar a voltagem. Por isso, ele sozinho não diz quanta energia útil a bateria realmente armazena.

É aí que entra o Wh (Watt-hora): ele representa a energia total disponível, levando em conta tanto a corrente (mAh) quanto a tensão (V). Para converter mAh em Wh, é preciso usar a fórmula:

📌 Wh = (mAh × V) ÷ 1000

Esse é o número que permite saber, de forma clara, quanto tempo um aparelho vai durar em uso real.

Comparação prática das unidades:

Unidade O que mede Usada para… Exemplo prático
Watt (W) Potência (energia por segundo) Saber o consumo ou entrega de energia Um notebook consome 30W ao rodar vídeos
mAh Capacidade de carga elétrica Mostrar quanta corrente uma bateria armazena (sem voltagem) Uma bateria de celular com 5.000mAh
Wh Energia total armazenada Calcular autonomia de bateria com precisão Um powerbank com 18Wh pode fornecer 9W por 2 horas

O impacto no desempenho real e no aquecimento

Além da autonomia, o Watt também influencia diretamente o desempenho. Isso porque todo componente eletrônico gera calor proporcional ao quanto consome — e esse calor precisa ser dissipado. Se não for, o sistema reduz automaticamente o desempenho para evitar superaquecimento.

Ou seja, dois dispositivos com o “mesmo” processador podem ter rendimentos diferentes se um tiver mais capacidade térmica (como um cooler) e permitir mais consumo em Watt.

Aqui, o GHz engana: o chip até pode bater 5GHz, mas só por alguns segundos — antes de “esfriar” a performance para manter a temperatura sob controle.

A falta de transparência é proposital

E por que as marcas não deixam esse número mais visível? Simples: o Watt é honesto. Ele mostra o consumo real, a entrega de energia e os limites do sistema.

Já o mAh parece mais vantajoso, mesmo que não diga quase nada sozinho. Para converter mAh em Wh, por exemplo, você ainda precisa saber a voltagem exata — outro dado que raramente vem na embalagem.

Pior ainda: muitos processadores e chips gráficos têm versões com limites de consumo diferentes, mas com o mesmo nome comercial. Um chip de 100W pode ter desempenho muito superior ao de 60W — mesmo que ambos sejam chamados, digamos, de “RTX 4080”.

Controle real só com números reais

Saber o consumo em Watts é empoderador. Se você souber que seu aparelho consome 25W por hora e tiver uma bateria de 50Wh, é fácil calcular que ele deve durar duas horas sob aquele ritmo de uso.

Afinal, muita gente acha que um número maior de mAh assegura automaticamente uma bateria melhor. Só que essa lógica falha quando comparamos produtos com voltagens diferentes. Como o mAh não leva em conta a tensão da bateria, ele pode enganar.

Já o Wh (watt-hora) mostra a energia real disponível — e é esse valor que realmente importa para saber quanto tempo um aparelho vai durar.

Veja a comparação:

Produto Capacidade (mAh) Voltagem (V) Energia real (Wh) Resultado prático
Power bank genérico A 10.000 mAh 3,7 V 37 Wh Dura cerca de 7 horas com carga de 5W
Power bank premium B 8.000 mAh 5 V 40 Wh Dura cerca de 8 horas com carga de 5W
Tablet de entrada 7.040 mAh 3,8 V 26,75 Wh 5 a 6 horas de uso moderado
Tablet avançado com chip otimizado 6.000 mAh 7,6 V 45,6 Wh Até 9 horas de uso intenso
Celular com 5.000mAh (padrão) 5.000 mAh 3,85 V 19,25 Wh 4–6 horas de uso em alto desempenho
Celular gamer com 6.000mAh 6.000 mAh 3,6 V 21,6 Wh 3 horas em jogos pesados (consumo alto)

Conclusão: um número maior de mAh pode parecer vantajoso, mas se vier com uma voltagem mais baixa ou um sistema que consome muita energia, o aparelho pode durar menos que outro com “menos bateria” no papel. O que realmente importa é a combinação entre voltagem e consumo, expressa em Wh.

E se precisar de mais tempo longe da tomada, é só reduzir brilho, fechar apps e diminuir a exigência, cortando o consumo pela metade — o que dobra o tempo. Mas para isso, os Watts precisam estar visíveis, acessíveis e compreensíveis. Algo que, hoje, a maioria dos fabricantes parece não querer.

Como não cair na pegadinha dos mAh: dicas para comparar baterias de verdade

Nem sempre você vai encontrar o valor em Wh (watt-hora) ou o consumo em W (watt) na embalagem. Mas isso não significa que você está sem saída. Aqui vão dicas práticas para avaliar melhor a autonomia e o desempenho de qualquer dispositivo:

1. Aprenda a converter mAh em Wh

Se o produto mostra apenas mAh, você pode fazer a conversão simples, desde que descubra a voltagem da bateria (geralmente entre 3,6V e 7,6V para dispositivos móveis).

Fórmula:
Wh = (mAh × V) ÷ 1000

Exemplo:
5.000 mAh × 3,85 V ÷ 1000 = 19,25 Wh

2. Procure a voltagem no site oficial ou manuais técnicos

A voltagem costuma estar oculta nos detalhes técnicos, manuais em PDF ou páginas de suporte das marcas. Sites de reviews completos (como NotebookCheck, GSMArena ou iFixit) também costumam trazer essa informação.

Reprodução/Valve

3. Prefira produtos que informem o consumo em Watts

Essa é bem mais difícil, é verdade. Alguns fabricantes mais transparentes, como a Valve com o Steam Deck, divulgam o consumo típico em Watts. Isso te permite calcular exatamente:

Tempo de uso (em horas) = Wh ÷ W

Se a bateria tem 40Wh e o aparelho consome 10W em média, você terá cerca de 4 horas de uso contínuo.

4. Desconfie de números altos de mAh em power banks baratinhos

Power banks de 10.000 mAh com preços muito baixos geralmente têm eficiência ruim e, às vezes, capacidade inflada. Mesmo com “10.000 mAh”, eles podem entregar menos de 30Wh reais.

5. Use ferramentas e apps que mostram o consumo em tempo real

Se você já comprou o dispositivo, apps como Battery Monitor (Android e iOS), GSam Battery Monitor (Android), BatteryInfoView (Windows) ou CoconutBattery (Mac) ajudam a estimar o consumo em Watts e a saúde da bateria.

Uma herança confusa com nome ilustre

Curiosamente, o nome da unidade mais ignorada nos eletrônicos modernos veio de alguém que ajudou a popularizar… outra medida nada intuitiva: o “cavalo-vapor” (horsepower).

James Watt, o engenheiro escocês que nomeou a unidade de potência, usou o conceito de quantos cavalos sua máquina substituía para convencer empresários a adotá-la.

Mas, ironicamente, foi só mais tarde que a comunidade científica resolveu batizar a unidade de potência elétrica com seu nome — justamente para dar mais precisão aos cálculos que o próprio Watt começou com suposições empíricas.

Hora de abandonar os números de ilusão

Enquanto seguimos olhando para megapixels, GigaHertz e miliAmpères-hora como se fossem sinônimos de desempenho e duração, estamos perdendo a chance de entender de fato como nossos aparelhos funcionam — e como tirar o melhor deles.

Fica o convite: da próxima vez que for comprar ou avaliar um eletrônico, pergunte-se: Quantos Watts ele consome? A resposta pode mudar sua escolha.

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