Artigo | A representatividade feminina em Hollywood: o Teste de Bechdel

aliens newt ripley

“O público não quer ouvir um monte de mulheres conversando sobre o que quer que seja que mulheres conversam”: essa foi a explicação que um professor de Cinema da Universidade da Califórnia em Los Angeles deu a uma de suas alunas após criticar alguns de seus roteiros. Segundo o professor, isso reflete mais as preferências do público do que a própria indústria cinematográfica. E isso tornou-se uma falácia com o passar do tempo.

A falta de personagens femininas fortes e significantes e que possuem sua própria história, não servindo apenas como um acessório ou interesse romântico de um personagem masculino, é muito recorrente no cinema desde seu início. Os famosos filmes de ação ‘007’ retratam essa ausência do protagonismo feminino: James Bond é o modelo do personagem forte, o galã com “licença para matar” que sempre possui uma mulher diferente ao seu lado, as quais praticamente não possuem nenhuma relevância real para a história. Quase nenhum dos filmes de James Bond possui uma figura feminina fixa que não seja apenas a donzela em perigo ou a nova paixão do herói – exceto pela mudança da personagem “M”, cujo papel foi por muito tempo interpretado por homens, mas que, entre 1995 e 2012, foi representado pela atriz Judi Dench.

A representatividade feminina nos filmes é medida, até certo ponto, pelo assim conhecido Teste de Bechdel, o qual foi criado pela cartunista Alison Bechdel em um de seus quadrinhos – cuja história foi baseada no livro ‘Um Teto Todo Seu’, de Virginia Woolf, que critica as relações superficiais entre mulheres na ficção.

bechdeltestcartoon

O Teste de Bechdel avalia a visibilidade das mulheres nos filmes e até mesmo em outras plataformas de entretenimento. Esse sistema de avaliação não é obrigatório e não julga a qualidade de obras cinematográfica – apenas a representatividade da figura feminina. Para que seja aprovado no teste, o filme deve contemplar três aspectos:

1) Existência de mais de uma personagem feminina nomeada;
2) Existência de ao menos uma cena em que essas personagens conversam;
3) Na cena em questão, o diálogo não deve envolver, de nenhum modo, o assunto “homem”.

Apesar de parecer algo muito simples, a maioria das produções cinematográficas (atuais ou não) não passam no teste. Caso este fosse um método de avaliação obrigatório para o lançamento de filmes, mais da metade dos indicados ao Oscar, por exemplo, não haveria passado pelo famigerado tapete vermelho.

o estranho mundo de jack

‘O Estranho Mundo de Jack’, indicado em 1993 ao prêmio de Melhores Efeitos Visuais, seria um deles. Apesar de ser um dos filmes que marcaram a carreira de Tim Burton no campo cinematográfico, a única personagem feminina nomeada – Sally – protagoniza cenas com Jack ou com Oogie Boogie, atuando como par romântico ou como donzela em perigo, respectivamente. ‘Chinatown’, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro em 1974, também falharia no teste: apesar do grande arco envolvendo Evelyn e Hollis Mulwray, em momento algum nos é mostrado uma cena entre as duas, mas sim entre Eve e o detetive Gittes.

Até mesmo filmes como ‘As Mulheres’ (1939) e ‘Sexo e a Cidade’ (2008), cujas produções contam um elenco predominantemente feminino e que agradam a maioria das mulheres, falhariam no teste por não contemplarem os aspectos em questão.

O EFEITO SMURFETTE

vingadores 2

Esse processo também ajudar a avaliar o comum Efeito Smurfette, cujo nome provém da personagem Smurfette, da animação ‘Os Smurfs’. Tal efeito ocorre quando há apenas uma mulher em um elenco predominantemente masculino. Dentre os filmes que carregam essa disparidade de gênero, pode-se citar diversos blockbusters como ‘Os Vingadores’ (2012), ‘A Origem’ (2010), a trilogia original de ‘Star Wars’ (1977, 1980 e 1983) e ambas as produções de ‘Quarteto Fantástico’ (2005 e 2015).

Tal ocorrência preocupa muitos estudiosos, incluindo historiadores e teóricos, pois retrata um panorama irrealista da proporção entre homens e mulheres no mundo. A não ser que a obra analisada seja produzida especificamente para o público feminino, a quantidade de homens no elenco será predominante.

Contudo, apesar de ser um bom começo para medirmos a visibilidade e a representação da mulher nos filmes, o Teste de Bechdel está longe de ser perfeito, já que mede apenas a quantidade e não inclui a qualidade das relações entre as personagens.

alien

Por exemplo, um filme que contém apenas uma única cena em que duas mulheres realizam um processo dialógico por alguns segundos no qual debatem sobre como escaparão do monstro – ‘Alien, o 8º Passageiro’ (1979) – seria aprovado, mas o filme ‘Gravidade’ (2013), que possui uma mulher como personagem principal (interpretada por Sandra Bullock), não seria aprovado pela inexistência de outro papel feminino.

Em contrapartida, deve-se levar em consideração filmes avaliados pelo Teste que abordam a complexidade de personagens femininas e suas relações independentes à figura masculina. A obra ‘Malévola’ (2014), protagonizado por Angelina Jolie, desconstrói o paradigma da obra criada pelos Irmãos Grimm e adaptada por Walt Disney em 1959 de que a princesa em perigo deve ser resgatada por um príncipe com o beijo de amor verdadeiro. ‘Malévola’, em seu magnífico arco, retifica a relação mãe-filha ao nos apresentar gradativamente como a suposta vilã arrepende-se da maldição jogada em Aurora (Elle Fanning) e passa a tratá-la como protegida, tornando-se responsável pela salvação do destino infortunado da menina. As três fadas – Fauna, Flora e Primavera -, mesmo em seus papéis de coadjuvante, conversam apenas sobre o futuro da garota e sobre seus problemas pessoais. Rei Stefan (Sharlto Cooper) – o único personagem masculino com certa relevância – fica esquecido por trás das cortinas.

malevola 2

Traçando um paralelo entre A Bela Adormecida’ e ‘Malévola’, pode-se comparar a mudança do arco narrativo e da própria construção das personagens Malévola e Aurora. Enquanto na adaptação feita por Disney o extremismo representado pelo “bem” e pelo “mal” leva o acaso a aproximar o príncipe Phillip – considerado um figurante dentro da história – e salvar a princesa do sono eterno, no remake contemporâneo, ambas as personagens femininas possuem personalidades humanas, não alegóricas: Aurora é uma princesa mimada que passa pelo processo de amadurecimento após entrar na adolescência, e Malévola, sucumbindo à escuridão no primeiro ato da história, é movida pelo desejo de redenção ao tentar salvar sua protegida da maldição. Phillip e Stefan participam apenas como “tapadores de buracos”, refutando a ideia medieval das histórias infantis e enaltecendo a representatividade feminina.

Os contos de fada permeiam as principais adaptações cinematográficas de histórias que carregam consigo a falta do protagonismo feminino e a retificação do Efeito Smurfette. Assim como A Bela Adormecida’ e suas adaptações, o conto ‘João e Maria’ (1812) e sua releitura trazem como protagonistas os personagens homônimos, mas claramente dá uma presença mais eficaz da criação masculina. Na história original, João torna-se o principal líder de ambos os momentos do plot – no caminho para a casa de doces e na volta para a casa – e o primeiro a passar pelo amadurecimento psicológico. Na adaptação ‘João e Maria – Caçadores de Bruxas’ (2013), protagonizado por Jeremy Renner e Gemma Artenton, Maria torna-se o foco principal da cena, principalmente nas sequências entre ela e Muriel (Famke Janssen), nas quais conversam sobre passado, presente e futuro e sobre as habilidades ocultas da menina responsável pela morte da bruxa da casa de doces, refutando a ideia da centralização masculina.

branca de neve 5

‘Branca de Neve e os Sete Anões’ (1937) reflete extremamente bem a questão Smurfette: a personagem Branca, apesar de possuir curtíssimas cenas com a Rainha Má – sua madrasta – tem seu arco narrativo constantemente reduzido devido à presença masculina – o caçador, os sete anões e o príncipe -, os quais tomam para si inclusive a posse do “corpo e alma” da mulher. Na adaptação de 1987, o papel de “ajudantes e trabalhadores” desempenhado pelos anões é passado para camponesas que ajudam Branca (Nicola Stapleton) a fugir da madrasta (Diana Rigg). O caçador é na verdade a própria vilã, que deseja envenenar todo seu séquito e a família da protagonista para que ela finalmente desista da resistência. Desse modo, o Efeito Smurfette desaparece e a presença feminina é enaltecida.

Entretanto, a adaptação ‘Espelho, Espelho Meu’ (2012), ainda que traga a presença forte e bem desenvolvida da cínica Rainha Má (Julia Roberts), coloca Branca de Neve (Lily Collins) a mercê da ajuda dos anões e à semente do amor verdadeiro para com o príncipe. Porém, deve-se levar em consideração sua criação complexa e o fato de que Branca torna-se uma guerreira rebelde – mas ainda em função do homem – que deseja destronar a governante tirana.

killbill cinepop

Outro filme contemplado em sua totalidade pelo Teste é ‘Kill Bill’ (2004), uma obra de Quentin Tarantino, protagonizado por Uma Thurman. Por mais que o objetivo da personagem Beatrix Kiddo/Mamba Negra seja assassinar Bill, o foco do público é dirigido para as belíssimas cenas coreografadas da protagonista com suas inimigas, cujos diálogos contemplam temas como vingança, traição e redenção.

Em outros vieses, o teste falha ao deixar de lado a complexidade das personagens e o conteúdo de seus diálogos – como em ‘Chinatown’, cuja personagem feminina é, senão mais, tão bem construída quanto Gittes. Filmes com personagens femininas superficiais, sem força ou relevância para a história e que configuram como parte de um arco narrativo de um personagem masculino, mas que atendem às demandas de Bechdel, seriam bem avaliados, enquanto filme com mulheres complexas, fortes, que possuem total relevância e que se tornam protagonistas da história (como a personagem Hermione Granger na franquia ‘Harry Potter’ (2001)) teoricamente falhariam.

Hermione brews Polyjuice

Dentre aspectos a serem incorporados e analisados pelo Teste, pode-se citar os seguintes:

4. Alguma dessas mulheres possuem seu próprio arco narrativo?
5. Seu arco narrativo serve apenas como suporte para a história de um homem ou desenvolve-se numa trama independente e/ou bem construída?

As regras acima, na verdade, já foram adaptadas no que seria uma nova versão de Teste, conhecido como Teste Mako Mori. Mako Mori é uma personagem do filme ‘Círculo de Fogo’ (2013), que causou muitas controvérsias por não passar no teste de Bechdel, apesar de ser uma personagem forte, livre de estereótipos devido à sua descendência oriental e extremamente complexa, a qual sempre desafia os homens ao seu redor, mas não conversa com nenhuma outra mulher durante o filme. Sendo assim, algumas pessoas se reuniram para elaborar um novo teste que levaria em conta essas personagens.

Logo, o filme “perfeito” seria aquele que possuem mais de uma personagem feminina complexa, relevante para a história e que não exista apenas em função de um homem. E tais produções existem, apesar de não serem maioria.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.